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  • O impacto mundial do gás de xisto dos EUA

      2014-01-01
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    A maior inovação na energia neste século, até agora, tem sido o desenvolvimento do gás de xisto e o recurso associado conhecido como “xisto betuminoso”. A energia de xisto situa-se no topo não apenas pela sua abundância nos Estados Unidos, mas também devido ao seu impacto mundial profundo – como os acontecimentos em 2014 continuarão a demonstrar.

    O gás de xisto e o xisto betuminoso nos Estados Unidos estão já a transformar os mercados de energia mundiais e a reduzir quer a competitividade da Europa em comparação com os Estados Unidos quer a competitividade da indústria da China no geral. Trazem também mudanças na política mundial. De facto, como a energia de xisto pode mudar o papel dos Estados Unidos no Médio Oriente está a tornar-se um tema quente em Washington e mesmo no Médio Oriente.

    Esta “revolução não-convencional” no petróleo e no gás não chegou rapidamente. A fracturação hidráulica – conhecida como “fracking” – surgiu por volta de 1947, e os esforços iniciais para adaptá-la a xisto denso começou no Texas no início da década de 80. Mas, não foi até ao final dos anos 90 e início da década de 2000 que o tipo específico de fracturação para o xisto, combinado com a perfuração horizontal, foi aperfeiçoada. E não foi até 2008 que o seu impacto na oferta de energia dos Estados Unidos se tornou notável.

    Desde então, a indústria desenvolveu-se depressa, com o gás de xisto a representar actualmente 44% da produção total de gás natural dos Estados Unidos. Tendo em conta a oferta abundante, os preços do gás nos Estados Unidos têm descido para um terço daqueles que se verificam na Europa, enquanto a Ásia paga cinco vezes mais. O xisto betuminoso, produzido com a mesma tecnologia do gás de xisto, está a impulsionar a produção de petróleo dos Estados Unidos também, crescendo 56% desde 2008 – um aumento que, em termos absolutos, é superior à produção total de oito dos doze países da OPEP. De facto, a Agência Internacional de Energia prevê que, nos próximos anos, os Estados Unidos ultrapassem a Arábia Saudita e a Rússia e se tornem o maior produtor de petróleo do mundo.

    Há cinco anos, esperava-se que os Estados Unidos importassem maiores volumes de gás natural liquefeito (GNL) para compensar um défice previsto na produção interna. Agora, os Estados Unidos não importam qualquer GNL – poupando assim 100 mil milhões de dólares dessa factura anual de importação. Aos preços actuais, o aumento da produção nos Estados Unidos tem reduzido mais 100 mil milhões de euros dessa factura. Além disso, a revolução não convencional suporta cerca de dois milhões de empregos.

    O impacto mundial tem sido enorme. Muita da nova capacidade mundial de GNL foi desenvolvida com os Estados Unidos em mente. Agora, com o mercado dos Estados Unidos isolado pelo gás doméstico barato, algum do GNL vai para a Europa, introduzindo concorrência inesperada aos fornecedores tradicionais Rússia e Noruega.

    Para o Japão, a falta de procura dos Estados Unidos por GNL provou ser afortunada no rescaldo do desastre da central nuclear de Fukushima Daiichi, em 2011. Muito do GNL poderia ir para o Japão para gerar electricidade, substituindo a electricidade perdida pelo encerramento da central nuclear.

    Muitos outros países estão a reavaliar as suas próprias políticas de energia à luz da revolução não-convencional da energia. A China, vendo a rapidez e a extensão do desenvolvimento do gás de xisto dos Estados Unidos, atribuiu uma elevada prioridade ao desenvolvimento dos seus vastos recursos não-convencionais de gás. Para a China, substituir o carvão pelo gás natural na geração de electricidade é essencial para mitigar o descontentamento público e os problemas de saúde decorrentes da carga pesada da poluição urbana do ar.

    O aumento da energia de xisto dos Estados Unidos está também a ter um impacto económico mundial extenso: o gás de xisto americano está a mudar o equilíbrio da competitividade na economia mundial, dando aos Estados Unidos uma vantagem inesperada. De facto, o gás natural barato está a alimentar um renascimento industrial dos Estados Unidos, com as empresas a construírem novas fábricas e a expandirem as instalações existentes.

    Em toda a Europa, os líderes industriais estão cada vez mais alarmados com a perda de competitividade das empresas para as fábricas que utilizam gás natural de baixo custo e da consequente mudança de fabricação da Europa para os Estados Unidos. Isto é particularmente preocupante na Alemanha, que depende das exportações para a metade do seu produto interno bruto e onde os custos da energia permanecem numa trajectória teimosamente ascendente. Estes custos elevados significam que a indústria alemã vai perder a sua quota de mercado mundial.

    Quaisquer que sejam as suas metas para mudar o seu mix de energia, os países da União Europeia, que já sofrem de elevado desemprego, serão forçados a reconsiderarem as estratégias de energia de elevados custos ou a enfrentarem o enfraquecimento da competitividade e a perda de empregos.

    O impacto geopolítico já é evidente. Por exemplo, o Irão tem agora seriamente em cima da mesa as negociações nucleares, que poderiam bem não ter acontecido se não fosse o xisto betuminoso. Quando as sanções rígidas foram impostas às exportações de petróleo iranianas, muitos temeram que os preços do petróleo disparassem, e que as sanções acabassem por falhar, devido à oferta alternativa insuficiente. Mas o aumento da produção de petróleo dos Estados Unidos nos últimos dois anos, mais do que compensou a produção em falta do Irão, permitindo que as sanções (impulsionadas por medidas financeiras paralelas) funcionassem, levando o Irão a negociar de forma séria, o que não estava disposto a fazer há dois anos.

    Nas capitais árabes, está a crescer a ansiedade de que um rápido aumento na produção de xisto betuminoso nos Estados Unidos venha a impulsionar a libertação de retalho dos Estados Unidos por parte do Médio Oriente. Mas isto exagerou a forma como as importações directas de petróleo dão forma à política dos Estados Unidos em relação à região. Para ser correcto, o aumento da produção dos Estados Unidos, combinado com uma maior eficiência de combustível automóvel, vai continuar a reduzir as importações de petróleo dos Estados Unidos. E, enquanto os Estados Unidos continuar a importar petróleo nos próximos anos, muito disso virá do Canadá (não obstante o debate sobre o oleoduto de Keystone XL).

    Mas, o facto é que a oferta do Médio Oriente se elevou muito no cenário global de petróleo dos Estados Unidos por algum tempo. Afinal, antes mesmo do crescimento do xisto betuminoso, o Golfo Pérsico proporcionou apenas cerca de 10% da oferta total dos Estados Unidos. Não era directo que as importações de petróleo dos Estados Unidos do Médio Oriente, mas sim a importância do petróleo para a economia e a política mundial, que ajudou a definir os interesses estratégicos dos Estados Unidos.

    O Médio Oriente vai continuar a ser uma arena de grande importância geopolítica e o seu petróleo será essencial para o funcionamento da economia mundial. Isso implica que a região deverá continuar a ser central para o interesse estratégico para os Estados Unidos.

    No geral, contudo, a revolução de energia de xisto proporciona uma nova fonte de resiliência para os Estados Unidos e melhora a sua posição no mundo. A emergência de gás de xisto e do xisto betuminoso nos Estados Unidos demonstra, mais uma vez, como a inovação pode mudar o equilíbrio da economia mundial e do poder político.

    Daniel Yergin é vice-presidente do IHS


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